No ecossistema da tecnologia, a inovação costuma ser celebrada nos discursos de liderança, mas, no “chão de fábrica” do código, a realidade pode ser bem mais hostil. À medida que surgem linguagens alternativas com o objetivo de facilitar e democratizar o desenvolvimento, observamos um fenômeno preocupante: desenvolvedores de tecnologias consideradas “clássicas” adotam comportamentos que começam como brincadeiras inofensivas, mas escalam para tons agressivos e ataques pessoais, tudo em nome de defender suas convicções e proteger suas posições, pois o novo e fácil pode substituí-los.

É o que podemos chamar de Assédio ou Discriminação Tecnológica.

O Perfil do Preconceito na TI

Não é raro presenciarmos comportamentos discriminatórios contra profissionais que utilizam JavaScript, PHP, Python ou bancos de dados como PostgreSQL, MySQL e MongoDB. Geralmente, o alvo são tecnologias mais novas, open source ou que fogem do “mainstream corporativo” tradicional.

Essa perseguição ocorre tanto quando a empresa decide adotar uma nova tecnologia quanto quando o profissional, em sua vida privada, defende essas ferramentas, mas é ridicularizado no ambiente de trabalho. O foco deixa de ser a característica técnica da ferramenta e passa a ser a desqualificação do indivíduo.

A “Geladeira Tecnológica”

A experiência em grandes operadoras de telefonia no Brasil — ambientes historicamente dominados por gigantes como Java, Oracle, .Net e Teradata — revela um padrão. Ao tentar implementar soluções mais ágeis, baratas e seguras com ferramentas de código aberto, o maior desafio não é o escopo do projeto ou a entrega ao cliente, mas sim romper o “ranço” cultural.

A resistência se manifesta em frases que mascaram o assédio moral:

  • “Não vamos gastar nosso tempo com essa porcaria.”
  • “Meu time não vai mexer com essa merda, sou um profissional da tecnologia XPTO.”
  • “Quem mexe com tal tecnologia é amador?”
  • “Quando vocês vão migrar para algo profissional?”
  • “É problema com essa tecnologia? Não vou ajudar, escale o assunto.”

Esse comportamento cria a “geladeira tecnológica”: o profissional é ignorado por outros times e gestores. O pior cenário ocorre quando a própria liderança incentiva sua equipe a isolar colegas devido a divergências de stack, configurando um ambiente de trabalho tóxico e excludente.

O Legado Também Pode ir para a Geladeira: O Isolamento dos “Dinossauros”

Se por um lado existe o preconceito com o novo, há uma face igualmente cruel da discriminação tecnológica: o etismo técnico voltado aos guardiões do legado. Profissionais que dominam Mainframes, COBOL, C, Assembler e outras tecnologias fundamentais — que sustentam o sistema financeiro e logístico global — frequentemente se veem confinados em uma “geladeira de luxo”.

Em fóruns como o Reddit (em discussões no r/mainframe e r/programming), o desabafo desses profissionais revela um isolamento estrutural. Eles são os “bombeiros” chamados apenas no momento do desastre, mas excluídos de toda a jornada de inovação da empresa.

Os sintomas desse tipo de assédio incluem:

  • A Prisão do Conhecimento: O profissional é impedido de aprender novas tecnologias sob a justificativa de que “ele é o único que sabe manter o legado”. Isso gera uma estagnação forçada, onde o colaborador se torna um prisioneiro de sua própria competência.
  • Ridicularização e Estigmatização: O uso de termos como “dinossauro”, “peça de museu” ou “ancião do código” deixa de ser uma brincadeira geracional para se tornar uma forma de desqualificação profissional. O conhecimento profundo de arquitetura é ignorado em favor da fluidez na ferramenta “da moda”.
  • Exclusão da Estratégia: Decisões sobre a modernização de sistemas são tomadas sem consultar quem conhece as entranhas do negócio. Isso gera o que a psicologia do trabalho chama de esvaziamento de função, onde o profissional sente que seu trabalho não tem mais valor para o futuro da organização.

O Impacto Humano — Cicatrizes Além do Código

Quando o preconceito tecnológico se instala, o dano não fica restrito à produtividade; ele atinge o cerne da saúde mental do profissional. Em comunidades como o Reddit (em subreddits como r/cscareerquestions e r/programming), é comum encontrar relatos de desenvolvedores que se sentem “encurralados” e “diminuídos” por não utilizarem a stack da moda ou as tecnologias legadas protegidas por “guardiões do conhecimento”.

Os principais impactos identificados são:

  • Aprofundamento da Síndrome do Impostor: O profissional começa a acreditar que seu sucesso é uma fraude porque “quem usa linguagem X não é programador de verdade”. Isso gera uma ansiedade crônica e o medo constante de ser “descoberto” como incompetente.
  • Erosão da Autoconfiança: O assédio disfarçado de “brincadeira técnica” mina a capacidade de inovação. O colaborador passa a ter medo de sugerir soluções novas para não ser alvo de chacota.
  • Estagnação de Carreira (Pigeonholing): Muitos relatam que a “geladeira tecnológica” os impede de participar de projetos estratégicos, limitando suas chances de promoção e forçando-os a aceitar salários abaixo do mercado por se sentirem “obsoletos”, mesmo sendo especialistas em suas ferramentas.
  • Burnout por Isolamento: A sensação de ser ignorado por gestores e pares (a “exclusão técnica”) é uma das formas mais severas de violência psicológica, levando ao esgotamento físico e mental.

O Olhar Jurídico: A Nova NR-1 e o Assédio

O que muitos profissionais de TI ignoram é que esse “preconceito de linguagem” pode ser enquadrado legalmente como assédio moral. A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que entrou em vigor recentemente, trouxe mudanças cruciais sobre o tema.

1. A Nova Obrigação das Empresas (CIPA + Assédio)

A NR-1 agora exige que as empresas incluam regras de conduta a respeito do assédio sexual e de outras formas de violência no trabalho em suas normas internas. A antiga CIPA agora é CIPA+A (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes e de Assédio).

  • Base Legal: A Lei nº 14.457/22 e a atualização da NR-1 estabelecem que a empresa é responsável por criar canais de denúncia e realizar treinamentos anuais para combater a violência psicológica.

2. Assédio Moral Organizacional

Isolar um colaborador, ridicularizar suas ferramentas de trabalho ou incentivar o boicote técnico (a “geladeira tecnológica”) fere a dignidade do trabalhador.

  • Art. 5º, X da Constituição Federal: Garante a proteção à honra e imagem, fundamentando danos morais.
  • Jurisprudência: Casos similares no Brasil já resultaram em condenações por assédio moral quando ficou provado que a empresa permitiu um ambiente de “chacota sistemática” ou isolamento deliberado de um funcionário por suas competências técnicas.

3. Discriminação no Trabalho

A Convenção 111 da OIT (Organização Internacional do Trabalho), ratificada pelo Brasil, define discriminação como qualquer distinção, exclusão ou preferência que tenha por efeito destruir ou alterar a igualdade de oportunidades. Discriminar um profissional pela tecnologia que ele domina, impedindo-o de progredir ou de receber suporte, é uma forma de exclusão técnica.

4. A Conexão com a NR-1 e o Etismo

A discriminação contra o profissional do legado muitas vezes caminha de mãos dadas com o etismo (discriminação por idade). A nova NR-1 é clara ao proibir qualquer forma de violência psicológica que degrade o ambiente de trabalho.

  1. Assédio por Omissão: Deixar o profissional do legado sem treinamento para as novas tecnologias da empresa, visando forçar um pedido de demissão ou aposentadoria, é uma prática de assédio moral organizacional.
  2. Ambiente Hostil: Permitir que equipes mais jovens segreguem ou hostilizem os profissionais do legado cria um ambiente de trabalho psicologicamente inseguro, o que agora deve ser monitorado e combatido pela CIPA+A.

O respeito à “velha guarda” não é apenas uma questão de etiqueta corporativa; é uma salvaguarda contra processos trabalhistas e, acima de tudo, uma proteção à saúde mental de quem construiu as bases do que as empresas são hoje.

Casos Similares e a Realidade do Mercado

O “elitismo tecnológico” não é exclusivo do Brasil. Casos de gatekeeping (limitação de acesso) são comuns em comunidades de software livre, mas quando transpostos para o ambiente corporativo, tornam-se riscos ocupacionais.

  • O Caso do “PHP Basher”: Em diversas empresas de grande porte, desenvolvedores PHP foram sistematicamente excluídos de decisões de arquitetura de alto nível, sendo relegados a tarefas menores sob o argumento de que a linguagem “não era profissional”. Isso resultou em altos índices de burnout e rotatividade nessas equipes.
  • O “Silenciamento” em Migrações de Nuvem: Profissionais especializados em infraestruturas locais que ridicularizam times de Cloud Native (como Kubernetes e Docker), recusando-se a fornecer permissões ou suporte básico, criando gargalos propositais para provar a “superioridade” do modelo antigo.

Conclusão

A tecnologia deve ser uma ferramenta de solução, não uma arma de exclusão. Se você sofre com a “geladeira tecnológica” ou ouve constantemente ataques pessoais disfarçados de críticas técnicas, saiba que isso viola as diretrizes da nova NR-1 e os princípios básicos do Direito do Trabalho.

O TCTW (Toxic Company To Work) é o seu espaço para expor essas práticas. Não aceite o assédio como “parte da cultura dev”. A inovação exige respeito, e o respeito é uma obrigação legal.