Quando o “pensamento positivo” se transforma em silenciamento no trabalho
Nos últimos anos, um fenômeno silencioso e profundamente prejudicial tem ganhado espaço em ambientes corporativos: a positividade tóxica, também conhecida como positividade armada. Diferente do otimismo saudável, que reconhece dificuldades e incentiva soluções realistas, essa prática se caracteriza pela negação sistemática de emoções legítimas, críticas técnicas e sinais claros de adoecimento, tudo em nome da chamada “boa vibração”.
Quando isso acontece, sentimentos como cansaço, frustração ou preocupação deixam de ser vistos como dados importantes e passam a ser tratados como falhas individuais. Para quem vive essa realidade, é comum surgir a sensação de estar exagerando, sendo fraco ou incapaz, mesmo diante de problemas concretos e recorrentes.
Esse tipo de experiência não é isolado nem imaginário. Ela tem nome, padrão e consequências reais.
Quando a positividade se torna uma arma
No discurso corporativo contemporâneo, o otimismo é frequentemente vendido como solução universal. “Seja resiliente”, “tenha jogo de cintura”, “mantenha o mindset positivo”. Essas frases, quando usadas com equilíbrio, podem até apoiar o desenvolvimento pessoal. O problema surge quando elas passam a substituir a escuta, a análise crítica e a responsabilidade organizacional.
A positividade se torna tóxica quando:
- Emoções difíceis são automaticamente invalidadas.
- Problemas estruturais são tratados como “questões de atitude”.
- Questionamentos técnicos são interpretados como falta de engajamento.
Nesse contexto, o colaborador aprende rapidamente que dizer a verdade tem custo emocional e profissional. O silêncio passa a ser mais seguro do que a honestidade.
Otimismo saudável vs. positividade armada
É importante diferenciar esses dois conceitos.
O otimismo saudável reconhece desafios, aceita emoções humanas e busca caminhos concretos para superação. Ele parte do princípio de que problemas existem e precisam ser compreendidos antes de resolvidos.
Já a positividade armada impõe uma narrativa única: a de que tudo deve ser visto sob uma lente positiva, independentemente da realidade. Nela, alertas sobre sobrecarga, falhas de processo ou riscos são rotulados como negatividade, resistência à mudança ou falta de alinhamento cultural.
A mensagem implícita costuma ser clara, mesmo quando não verbalizada:
“Se você está desconfortável, o problema é você.”
Gaslighting institucional: quando a organização distorce a realidade
Dentro desse cenário, emerge um fenômeno ainda mais profundo e danoso: o gaslighting institucional. Ele ocorre quando a organização, direta ou indiretamente, faz o colaborador duvidar da própria percepção sobre o que está acontecendo.
Algumas frases comuns que funcionam como sinais de alerta:
- “Traga soluções, não problemas.”
Essa frase pode parecer construtiva, mas frequentemente impede que problemas complexos sejam sequer compreendidos em sua raiz. - “Aqui somos todos positivos.”
Cria um ambiente onde discordar ou questionar é interpretado como traição cultural. - “Você está sendo muito negativo.”
Invalida a percepção técnica, emocional e racional de quem aponta uma falha real.
Com o tempo, o foco deixa de ser o processo quebrado, a meta inalcançável ou a carga excessiva, e passa a ser o suposto “defeito” de quem ousou falar. Isso gera confusão interna, insegurança e um profundo desgaste psicológico.
O custo invisível: estresse, adoecimento e perda de talentos
Os impactos da positividade tóxica e do gaslighting institucional não são apenas subjetivos. Eles são amplamente documentados.
Estudos publicados pela Harvard Business Review indicam que a repressão emocional no trabalho aumenta significativamente os níveis de estresse, reduz a capacidade cognitiva e prejudica a tomada de decisão. A chamada dissonância emocional, quando a pessoa precisa demonstrar sentimentos que não condizem com o que realmente vive, está associada a quadros de burnout, ansiedade, depressão, insônia e outras doenças psicossomáticas.
Entre os efeitos mais comuns estão:
- Bloqueio na resolução de conflitos, já que problemas não nomeados não podem ser resolvidos.
- Adoecimento físico e emocional decorrente da repressão contínua.
- Perda de profissionais experientes e críticos, que deixam a organização por não se sentirem ouvidos ou respeitados.
É importante reforçar: adoecer em ambientes assim não é sinal de fragilidade individual, mas uma resposta humana a sistemas que negam a realidade.
Segurança psicológica como caminho possível
Combater a positividade tóxica não significa promover pessimismo ou desmotivação. Pelo contrário. Significa construir uma cultura de segurança psicológica, na qual as pessoas possam falar sobre o que não está funcionando sem medo de retaliação, julgamento ou ridicularização.
Organizações emocionalmente maduras entendem que:
- Emoções são dados.
- Críticas são insumos para melhoria.
- Desconforto sinaliza pontos de atenção.
Uma empresa saudável não é aquela que finge não ter problemas, mas aquela que escuta, valida e age diante deles.
Conclusão
A positividade tóxica e o gaslighting institucional não são práticas inofensivas nem meros “exageros de discurso motivacional”. Eles moldam culturas organizacionais que silenciam, adoecem e afastam pessoas competentes.
Reconhecer essas dinâmicas é um primeiro passo importante, tanto para profissionais que vivem esse tipo de ambiente quanto para empresas que desejam evoluir de forma ética e sustentável. Validar a experiência individual não enfraquece organizações. Ao contrário, fortalece relações, decisões e resultados no longo prazo.
Se algo dentro de você sente que “tem algo errado”, esse sentimento merece atenção. Ele pode ser um sinal legítimo de que o ambiente precisa mudar, não você.
Apoio e ferramentas
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Você não está sozinho. Informação e apoio fazem diferença.
Referências
- Harvard Business Review. The Dangers of Toxic Positivity at Work.
- Harvard Business Review. The Price of Forced Happiness.
- World Health Organization. Burnout as an occupational phenomenon.
- Amy Edmondson. The Fearless Organization.

